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O Quarto Maldito da Capelinha

Há muito tempo havia uma capelinha no meio do nada. Essa capelinha era comandada por um frei já de idade com cabelos longos brancos e uma barba tão branca quanto a neve que se chamava Jair. O frei sempre foi muito paciente e educado com todos que frequentavam sua capela e apesar de não receber muitas visitas, todos que por ali passavam eram muito devotos e gostavam de passar ao menos uma hora na igreja rezando e depois confessarem com o frei Jair. O frei ouvia de o pecado de todos com amor e rezava para que Deus os perdoasse, desde os mais tediosos até os mais fortes ou curiosos. Frei Jair não podia contar à ninguém sobre aqueles pecados e por isso guardava para si, certas vezes com culpa, outras com nojo, mas o importante era preservar sua reputação como frei, se não a querida capelinha poderia ser tirada dele. Até que certo dia frei Jair estava em uma de suas rotinas diárias quando um homem chegou desesperado a capelinha, frei Jair assustou-se e então o homem foi correndo em sua direção. Frei Jair teve medo, mas manteve-se no lugar esperando que fosse um fiel desesperado em busca do perdão de Deus e ele estava certo, mas em partes. Era sim um fiel desesperado, mas esse homem quando chegou ofegante, com os olhos estalados e suando frio não queria nenhum perdão, queria dar apenas um aviso e esse aviso foi ouvido atentamente por Frei Jair:

– Cuidado!! Esse lugar corre perigo! O fogo virá e consumirá tudo que aqui estiver! – O frei ficou com medo de que algo ali por perto estava queimando, então disse ao fiel:

– Mas isso aqui é tudo o que eu tenho! Não posso abandonar esse local, eu o consegui com muito suor e sacrifício! Por favor, me ajude a apagar esse fogo que vem vindo. – O homem olhou incrédulo para o frei e então respondeu:

– Esse fogo é impossível de apagar! Não há como fugir! Quando você percebê-lo você já estará sendo engolido por ele! – O homem parecia estar falando muito sério, mas mesmo assim frei Jair não sairia daquele lugar por nada e o homem havia percebido aquilo. Achou frei Jair um homem bravo por querer proteger seus domínios e então apiedou-se pelo velho homem e lhe disse:

– Tudo bem então, se quer ficar que fiques! Mas deixe-me ajudar de uma forma. Pegue isso. – E entregou um pingente com um pequeno frasco pendurado no cordão para o frei. – Foi isso que me salvou do fogo maldito, talvez você tenha a mesma sorte que eu e consiga proteger sua casa! Espalhe uma gota por todos os cômodos desse lugar e fique com o pingente, com isso o fogo não lhe atingirá. Boa sorte! – Antes que dissesse mais alguma coisa o homem saiu correndo e virou na direção contrária da qual veio. Frei Jair ficou preocupado com tudo aquilo que o homem havia dito e então saiu correndo para fora da sua capelinha a fim de ver o fogo que estava chegando e pensar em uma maneira de se proteger, mas quando chegou na parte de fora surpresa, não havia nenhum fogo se aproximando, nem ao longe dali. Frei Jair sorriu ao perceber que aquele homem era apenas um louco e então encaminhou-se novamente para dentro da sua capelinha parar retornar às suas atividades diárias. Mas somente quando entrou novamente na capelinha percebeu que ainda estava com o pingente daquele homem e então teve dó do coitado, talvez fosse  um louco temporário e depois voltasse para pegar seu pertence, pensando assim frei Jair levou aquele pingente até seu quarto. Seu quarto era bem pequeno, havia um criado perto da porta, um guarda-roupa ao fundo e uma cama encostada na parede a esquerda. Frei Jair deixou o pingente com o frasco sobre o criado e saiu apressado para voltar a sua terefas que nunca terminavam. Enquanto saía, o frasco que havia sido colocado na ponta do criado recebeu uma rajada de vento que entrou pela janela aberta e derrubou o frasco no chão do quarto, o mesmo quebrou-se e seu líquido foi espalhado pelo chão do quarto.

Frei Jair fazia de tudo para deixar sua capelinha a mais linda de todas, carpia, repintava as paredes periódicamente, varria os arredores diariamente e lustrava suas preciosas imagens. Talvez, por conta dessa preocupação com a parte física daquela capelinha tão bem cuidada, frei Jair não foi capaz de impedir sua quase total destruição. No mesmo dia, frei Jair estava regando suas plantas quando de repente o frei começou a ouvir um crepitar, olhou para os lados e pensando ser sua imaginação voltou para suas plantas. Quando se virou, não viu mais sua preciosa capelinha, mas sim um fogo vermelho como sangue que tomava conta de tudo que ali estava e se aproximava cada vez mais. Frei Jair, acreditando só agora naquele homem que ele julgou insano, saiu correndo em direção ao seu quarto para pegar o pingente que o homem havia deixado e tentar se salvar daquele pesadelo, mas o fogo era rápido e estava atravessando a capelinha de uma forma incrível, transformando tudo o que tocava em cinzas. Frei Jair teve que assistir sua tão querida capelinha ser reduzida a cinzas enquanto corria. Quando entrou no corredor que dava para a porta do seu quarto sentiu um pequeno fio de esperança, mas aquele fogo já estava em seu encalço e quando frei Jair pôs a mão sobre a maçaneta da porta o fogo o atingiu e ele virou apenas um punhado de cinzas junto com tudo aquilo que ele amava ali na capelinha.

Muitas pessoas que passavam sempre pela capelinha na parte da manhã se assustaram com o que havia acontecido, chamaram todas as pessoas da cidadezinha alí perto para ajudar a procurar o querido frei Jair, mas sem sucesso, até que, acharam uma mão presa à uma maçaneta e por incrível que pareça a porta do quarto do frei Jair estava intacta junto com seu quarto e tudo o que havia dentro, ninguém nunca soube explicar o porquê daquilo. Por um bom tempo nada foi construído nem mudado naquele lugar, as pessoas tinham medo. Pela cidade se espalharam lendas, uma mais estranha que a outra, para explicar o caso do quarto maldito da capelinha. Hoje em dia conta-se que, atrás de um supermercado levantaram a construção de uma igreja e suas edificações na quadra inteira no lugar onde era a capelinha e o mais curioso de todos, não derrubaram o quarto do frei Jair, apenas reformaram e fizeram um quarto para pessoas que vão fazer encontros ou retiros passarem a noite e também é usado como depósito de coisas que não estão sendo mais usadas. Conta-se que naquele quarto há um boneco com uma roupa vermelha como sangue, barba e cabelo tão brancos como a neve também e ninguém sabe como aquilo chegou lá, nunca foi usado para nada, mas ninguém tinha coragem de jogá-lo fora porque havia algo naquele papai noel que colocava medo em qualquer um. E assim o tempo passa e todas as vezes que alguém dorme naquele quarto há reclamações de terem ouvido um crepitar distante.

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